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Karl Marx já dizia


RODRIGO RODRIGUES  é jornalista em Cuiabá.

RODRIGO RODRIGUES é jornalista em Cuiabá.

Eu sempre afirmei que um dos grandes, senão o maior atrativo da política, é a sua dinâmica. Porém sempre afirmei também que ela é dinâmica dentro de um universo limitado. Dentro desse círculo ela se movimenta e muda o tempo todo, mas por ser uma esfera limitada, em um dado momento ela se repete, portanto, no fundo, nada é “novo”. Karl Marx, grande pensador da esquerda, analisando a ascensão ao poder de Luís Bonaparte, sobrinho de Napoleão Bonaparte, disse a seguinte frase: “A história se repete, a primeiro vez como tragédia e a segunda como farsa”.

Todos aqueles que tentaram fazer da política uma ciência exata e dominá-la  foram pegos de surpresa de forma arrebatadora, sentindo na pele mais uma pérola do grande pensador, “de que tudo o  que é sólido desmancha no ar”. Às vezes, até os eleitores aceitam cabresto, mas a política em si não.

Parando para analisar o contexto político das últimas três décadas em Mato Grosso, pude constatar alguns fatos inusitados que comungam com a primeira frase que citei de Karl Marx. Mato Grosso, encravado entre o Pantanal, o cerrado e a floresta Amazônica, no início na década de 1980, tinha uma economia que não fazia nem cócegas no PIB nacional, porém nosso estado tinha grande representatividade política. Nessa época, deixava o governo Frederico Campos, homem decente, íntegro e honesto, e entrava Júlio José de Campos, com 36 anos, que prometia fazer Mato Grosso evoluir 40 anos em 4 anos. E, a lá Juscelino, com o peso político de nossos representantes políticos no Congresso Nacional, deu-se início a grande marcha, rumo à vocação econômica do estado.

Na sequência veio Carlos Gomes Bezerra, que consolidou o alicerce que possibilitou Mato Grosso receber brasileiros de todos os cantos, e nesse fluxo intenso de migração, o estado começa a ganhar força econômica. Nessa época, além dos já citados e do senador Márcio Lacerda, é bom lembrar que tínhamos no Congresso homens da envergadura de Gilson de Barros e Dante Martins de Oliveira, que depois se tornou o homem das diretas, ganhando projeção nacional e internacional.

Dante virou governador pelo Partido Democrático Trabalhista. Começou um governo turbulento, complicado, mas com o apoio dos grandes líderes do PMDB, botou o estado no trilho. Fez uma revolucionária mudança na gestão pública, e com seu peso político atraiu investimentos necessários e criou programas de incentivos que levaram Mato Grosso a ser referência do agronegócio mundial.

Dante de Oliveira migrou para o PSDB e ganhou mais força política, porém no final do seu segundo mandato inicia-se um processo de transição, em que  o estado ia ganhando peso econômico no cenário internacional e na mesma proporção perdia representatividade política. No Congresso Nacional, só sobrou “o gigante de Leverger”, senador Jonas Pinheiro. Em um primeiro momento, ninguém deu muita importância a esse fato, pois Mato Grosso ganhava projeção nacional e internacional como o estado mais promissor do Brasil.

Tempos depois, já acostumados com a situação financeira, a população em geral, de forma inconsciente, começou a sentir esse vácuo. Chegou-se o momento que conseguimos ser campeões em produtividade, equilibrando a balança comercial do país, mas em contra partida um estado completamente falido no que tange à formação de novos líderes políticos. Esse sentimento, essa ausência, levou muita gente a votar em Pedro Taques em 2010.

É preciso prestarmos atenção ao que Karl Marx dizia. Muito comentado, muito citado, pouco lido, e menos ainda entendido, ficaria muito interessado por esse processo que Mato Grosso vem passando nesses últimos trinta anos. O jovem Júlio Campos, na época com apenas 36 anos, foi o primeiro governador a mandar prender alguém. E esse alguém era o jovem prefeito de Juara, José Geraldo Riva, que tinha apenas 22 anos de idade.

José Riva dominou o parlamento estadual por 20 anos, trabalhando diuturnamente em um projeto de ser governador do estado, ampliando seu raio de influência por todos os cantos do estado, atendendo de 6 da manhã até as 10 da noite, inclusive fins de semana e feriados. E apesar de toda a estrutura e do trabalho duro não conseguiu.

O grupo político de Dante de Oliveira, ao ganhar a reeleição contra Júlio Campos, se julgou imbatível. Assim como a população julgava Júlio Campos contra Dante imbatível. O grupo do senador Blairo Maggi articulou com lideranças, como Roberto França e Jaime Campos, e derrotou o imbatível grupo do PSDB.

José Pedro Taques empunhou a bandeira de prender José Geraldo Riva, foi candidato ao senado em 2010, dando início à sua carreira política e em apenas 4 anos se tornou governador. Eleito pelo PDT, pregando uma reforma na gestão pública a lá Dante de Oliveira. E ainda a lá Dante de Oliveira, se aproxima do PSDB para ganhar projeção nacional. Prometeu priorizar o social a lá Carlos Bezerra e fazer Mato Grosso avançar 40 anos em 4, a lá Júlio Campos.

Entenderam como a política é dinâmica, mas dentro de um círculo fechado? E a história se repete, primeiro como uma tragédia depois como uma farsa e tudo que é sólido se desmancha no ar.


Rodrigo Rodrigues é jornalista, analista político e militante em Mato Grosso


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