A notícia acontece, a gente informa

PARA ALÉM DOS MANIQUEÍSMOS (um segundo exercício de crítica)


*Professor de Jornalismo da Unemat – Alto Araguaia, Mato Grosso e editor-geral da revista cientifica Comunicação, Cultura e Sociedade (RCCS).

*Professor de Jornalismo da Unemat – Alto Araguaia, Mato Grosso e editor-geral da revista cientifica Comunicação, Cultura e Sociedade (RCCS).

Ainda para muitos brasileiros, a crença da total necropsia da democracia representativa, desilusão que se desencadeia em uns como uma assepsia social e em outros de maneira mais encolerizada, é atribuída a um único partido, figura pública ou corrente de pensamento. Não que as acusações sejam infundadas e a maioria dos envolvidos de todo inocente, mas o que me impressiona é a constatação de que boa parte desta crença é formada por conteúdos produzidos e compartilhados por uma mídia canalha, expressão do jornalista Paulo Henrique Amorim, que nem sequer, em alguma oportunidade, tivesse a decência de assumir em seus editoriais a linha ideológica, ou algo do gênero.

Trata-se de um desserviço público, quando, se considerado a influência social da televisão na formação da memória social de todo o brasileiro ao longo das cinco décadas, observamos a cristalização/fixação no imaginário popular em muitos brasileiros de que a corrupção do sistema político, tão antiga quanto as primeiras missões jesuíticas em solo tupiniquim, seja um fenômeno particular, exclusivo. Ora inventado por um partido (ou alguns partidos e corrente ideológica), ora suscetível somente a um recorte de lugar e/ou tempo.

“Sabe de nada, inocente!”, já diria o compadre Washigton, ex-integrante do grupo de axé É o Tchan. Afinal, desde o espaço doméstico, quando o filho frauda o boletim escolar para escapar de uma surra do pai, à esfera do serviço público, quando um secretário ou agente administrativo ou professor universitário utiliza de poderes conferidos como extensão do poder pessoal: não nos faltam exemplos de que a corrupção está, infelizmente, no pedigree brasileiro – assim como, a malandragem, a falsa cordialidade e o interesse subsequente em tornar o público em privado, patrimônio pessoal.

 

“_ODEIO POLÍTICA! PARA MIM, NÃO FAZ A MÍNIMA DIFERENÇA.”

Há também aqueles brasileiros indecisos, acomodados pela falsa onipresença (ou seria telepresença) moral das comunidades virtuais, senão ludibriados por uma sensação de imunidade à luta de classes, à batalha civil que se tornou a polaridade esquerda e direita no Brasil, nos últimos 4 anos. Brasileiros que tem ignorado sistematicamente as manifestações da rua e os fóruns das redes sociais da internet; e que, bem por isso e outros N fatores, tem se mostrados atônitos diante a tudo relacionado à política. Basta considerarmos os resultados das eleições para prefeito nas maiores cidades brasileiras, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, quando o percentual de votos em branco foi maior do que o conseguido pelos respectivos candidatos vencedores.

A presença aritmética destes indecisos contrasta com a ausência geométrica (exponencial) daqueles brasileiros que ainda não sabem perguntar a quem interessa ao acirramento da bipolaridade política entre direita e esquerda, ou do porquê haver tanto ódio de uns a um partido somente; ou mesmo curiosidade de verificar qual a relação do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Ministério Público Federal (MPF) com os grupos rentistas e de financiadores de campanha eleitoral da maioria dos deputados federais e senadores. Como também capazes de verificar qual o perfil socioeconômico dos mais beneficiados pelas reformas (trabalhista, previdenciária, a terceirização) em votação no Congresso brasileiro. Ou até mesmo, brasileiros que indaguem: do porquê da grande imprensa no Brasil ter sido sempre a maior opositora à democratização da mídia no país. E também do porquê, segundo o jornalista Ronilson Pacheco (jornal Intercept, 08/08/2017), o judiciário ter se tornado uma casta privilegiada, corporativista; como logo se viu na relação de dois pesos, duas medidas, nos casos de Rafael Braga, jovem negro e pobre, preso no contexto das manifestações de 2013 e com uma nova condenação por tráfico em abril de 2017, e de Breno Borges, de 37 anos, preso em flagrante por portar 130 quilos de maconha, mas depois solto pelo fato de ser filho de uma desembargadora, Tânia Garcia de Freitas, presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Mato Grosso do Sul.

E, quase por fim – mas jamais o fim –, sente-se cada vez mais a ausência de brasileiros que esbocem uma sadia indignação, retórica: do porquê ainda outros muitos brasileiros se comoverem mais pela tragédia de um país vizinho ou distante, do que pelo próprio, como prova de um “viralatismo histórico”, para não dizer de protuberante assepsia social. A mesma que tende a banalizar a violência no seu cotidiano da forma mais hipócrita possível e, em se tratando do sentido de nacionalismo, fazem muitos brasileiros ficarem revoltados mais com a situação política da Venezuela, ainda que totalmente alheios à ruptura democrática no próprio país desde abril de 2016 (…)

 

Sob NOVOS OBSCURANTISMOS

Vivemos novos tempos de Obscurantismo no Brasil, haja vista: a ascensão fascista e reacionária nos espaços acadêmicos. No Congresso brasileiro, nunca o discurso de ódio e o fundamentalismo religioso balizaram tanto as relações políticas e institucionais, ao passo de temas importantes como a humanização do Sistema Previdenciário Brasileiro e das políticas públicas em defesa aos grupos LGBTT passarem por uma execração pública. Ao contrário da Europa medieval e da América aristocrática, a barbárie se apresenta camuflada em guerras silenciosas, mas simbolicamente devastadoras, que iniciam e parecem infindáveis, seja na timeline de cada usuário do facebook, seja na aba de comentários de uma dada publicação em um portal conhecido (G1/Globo, Portal UOL).

Quando acompanho as algumas fusões entre grandes grupos midiáticos com os de entretenimento e telecomunicação (AT&T com a Tim Warner, a Comcast com a NBC), bem como a ascensão do Facebook, do Google e da Amazon, em âmbito mundial, a preocupação maior reside nos efeitos apocalípticos da Sociedade da Comunicação, no que se refere ao estatuto de veracidade da informação, se é verídica ou fake News, real versus ficção, e o impacto da banalização deste estatuto na formação política das novas gerações. Para isso, é quase inevitável não pensarmos nos casos mais críticos, na qual, adultos e jovens hiperconectados diuturnamente, mostram-se cada vez mais surdos, mudos, cegos e distantes ao ente próximo, às suas relações de vizinhança.

Em se tratando de nossa moribunda democracia, temos diante de nós a “superestimação da percepção de uma cidadania mais regida pelas leis do mercado, do que pelo Estado e os poderes designados pelo crivo popular do povo. Em vez de cidadãos e o ideal de um Estado keynesiano (o de garantia de bem-estar e justiça social), há uma inevitável tendência de termos mais consumidores e um Estado servil ao capital econômico. Isso até pode parecer uma simplificação marxista da sociedade brasileira, mas prefiro entender como um alerta neomalthusiano, isto é: encarado como uma questão de sobrevivência das próximas gerações.

Olhando para o modo como se constitui a crise política brasileira, não seria absurdo compararmos ao que foi a Primavera Árabe no Oriente Médio, na época caracterizada pela queda de regimes políticos por meio de ações influenciadas pelas redes sociais da internet (sobretudo, o twitter). E, neste sentido, até diria que a nossa crise, embora a maioria das suas razões remonta a herança colonial, tende a instalar/consolidar mais pela negação crescente de participação orgânica (em carne, osso, coração e mente) da classe média na sociedade, na política e na cultura, como prova de uma paliativa despolitização da população brasileira; a partir de uma transição geracional que, infelizmente, ascendeu mais social e econômica do que culturalmente, entre as décadas de 1980 a 2000. Então comprovado pela mudança do perfil socioeconômico dos egressos nas universidades públicas brasileiras e, do ponto de vista ideológico, pelo crescimento desenfreado do neoliberalismo, e depois do fundamentalismo religioso e do capitalismo reacionário, no âmbito midiático, partidário e corporativo.

É CADA VEZ MAIS IMPERATIVO E URGENTE A FORMAÇÃO DE UMA GERAÇÃO DE BRASILEIROS (e cidadãos do mundo) que saiba fazer conclusões além daqueles maniqueísmos convencionais – do tipo mocinho e vilão, gente do bem e do mal – ; para que assim possamos apostar numa política reconciliatória de classes, etnias. Que não se convençam somente do discurso de belas modelos que se mostram indignadas em virais de vídeos, ou pela retórica de informações de fake News nas campanhas publicitárias de algumas ONGs, cuja fonte de renda é desconhecida. Que discirnam muito bem o que é justiça do de justiçamento, que perceba a diferença entre igualdade de oportunidades da de condições. Ou que seja flexível à percepção de que para resolver os problemas sociais de um país como o Brasil é preciso mais compreender as suas verdadeiras causas do que seus efeitos. O que, em outras palavras, ao invés de aplaudir frases como “Bandido bom é bandido morto”, compare quem é geralmente bandido e quem é geralmente morto no país. Tal como, de verificar que o debate de cotas raciais deve suceder ao de cotas sociais.

BRASILEIROS MAIS CÉTICOS E CAPAZES de desconfiar ao interdito nas imagens melodramáticas, ou do televisionado à exaustão no noticiário do Jornal Nacional, do SBT ou dos boletins da Globonews. Que não se prendem aos estereótipos pejorativos dos Danilos Gentillis, dos Cariocas e cias, enfim, de humoristas de stand up comedy em busca de cliques, tampouco ao juízo de valores de alguns apresentadores demagogos de programas de auditório. Ao passo de, mesmo possuindo uma orientação moral neopentecostal, saiba, por exemplo, apreciar na performance de Pabllo Vitar um talento singular, ao invés de julgar e reduzir o seu trabalho a uma questão de preconceito de gênero.

BRASILEIROS APAIXONADOS PELO DIALOGO E MOBILIZAÇÃO. QUANTO CONTAGIADOS POR UM VITALISMO NIETZSCHIANO DE AGIR, DE LUTAR, QUE, DIRETO OU INDIRETAMENTE, TENDE A EMANCIPAR NO SUJEITO A CERTEZA DE QUE TODO ATO NO PRESENTE PODE SE ETERNIZAR SE FEITO MAIS POR RAZÕES DO INCONSCIENTE DO QUE DO CONSCIENTE OCIDENTAL.

 

POR QUE NÃO NOVAS SINERGIAS CIDADÃS?!?

Também me parece plausível admitir que para vislumbrar a figura de um brasileiro mais ponderável, razoável em suas opiniões, a discussão perpassa os muros da universidade e as responsabilidades históricas da educação básica nas escolas (principalmente, as públicas, municipais e rurais). Uma atitude de ruptura ante uma combinatória estranguladora de indigências sociais e humanas, da qual, além de minimizar um ônus político quando o assunto é a qualidade da participação cidadã, fazem de fatores demográficos como a taxa de fecundidade nas famílias de baixa renda (em 1980: 4, e hoje: 2,1; Fonte: IBGE) grandes desafios para a formação de identidade política.

Sem sombras de dúvidas: O TRABALHO É DE BASE, DE FORMIGUINHA, TENDO COMO PRINCIPAL PROPOSTA DE AÇÃO O DE EDUCAR E FORMAR CONSCIÊNCIAS REFLEXIVAS E COM BOA MEMÓRIA CULTURAL E HISTÓRICA para lidar não somente com que se apresenta como óbvio (ou obtuso), mas, sobretudo, a de descontruir as amarras do que sempre pareceu invisível para milhões de brasileiros, negros, índios, pardos, pobres, putas e imigrantes de países em situação de Guerra Civil. É o QUE PAULO FREIRE (1921-1997), ao criticar a educação bancária das escolas de tendência conservadora e burguesa e defender um ensino transformador de consciências, CHAMAVA DE PEDAGOGIA DO OPRIMIDO. E é o que, QUANDO EU CONSIDERO A RELAÇÃO ENTRE GRUPOS MARGINALIZADOS DA POPULAÇÃO E CANAIS ALTERNATIVOS DE COMUNICAÇÃO CIDADÃ ENQUANTO UMA VIA PARA UM MUNDO MELHOR PARA OS HISTORICAMENTE DESFAVORECIDOS DO BRASIL, chamo de novas sinergias cidadãs. UM ATIVISMO DE RECONSTRUÇÃO DO PENSAMENTO DE SOCIEDADE BRASILEIRA!

No caso dos cursos de Jornalismo, principalmente aqueles situados em contextos semirrurais de urbanização, isto é, no interior do interior do Brasil, a preocupação deve ser dirigida em debruçar para uma formação profissional que, além de explorar todas as habilidades e competências exigidas no trabalho com as mídias e as novas tecnologias de informação, possibilite aos futuros profissionais uma percepção mais desnudada sobre a realidade social e econômica do Brasil. De modo a estabelecer, do ponto de vista pedagógico, relações de aprendizado e interlocução menos assimétricas entre a sociedade formal e suas versões informais. Quanto, no sentido (bio)político dos processos sociais em dada comunidade, vise compreender, por exemplo, qual o lugar da informação enquanto vetor de mudança social para quem é ou sempre foi um dos desfavorecidos da narrativa midiática-política, ANTE A: uma elite que sempre foi predatória; uma classe média, capacho das elites; uma boa parte da população de baixa renda que possui a síndrome de Estocolmo; enfim, uma democracia muito mais próxima de ser uma invenção da burguesia empresarial, industrial e ruralista, do que preferencialmente resultada de lutas populares, ainda que a essência do texto original da Constituição Federal de 1988 mostre o contrário.

 

 *Lawrenberg Advíncula da Silva é professor do Curso de Jornalismo da Unemat. Editor-geral da revista científica Comunicação, Cultura e Sociedade (RCCS), e um dos responsáveis da coletânea Cenários Comunicacionais: entre as sociedades industriais e as emergentes – volume Mundo Iberoamericano (2017), pela editora europeia Media XXI. 


// Você deve estar logado com seu perfil no Facebook para comentar. Este espaço visa promover um bom debate sobre o assunto tratado. Comentários com tons ofensivos, preconceituosos e que firam a ética e a moral podem ser excluídos.
Participe!