A notícia acontece, a gente informa

Sopão comunitário ajuda população pobre de Santa Rita (GO) e Alto Araguaia (MT)


Foto: Monique Esposito.

Por Aline Almeida – focagen.wordpress.com

Ninguém sabe ao certo como surgiu o movimento do “Sopão comunitário” no Brasil, mas em Santa Rita do Araguaia (GO) ocorreu em 1990, com a distribuição de sopa para moradores de rua e doentes. A ideia partiu da escrivã Raquel Borges Alves, de 52 anos, que sempre se comoveu com os menos favorecidos.

Quando não servia sopa, o cardápio era pão com carne moída e “Kisuki” (suco artificial). O projeto durou quatro anos, e só parou porque Raquel teve filhos (o estudante de engenharia Artur Alves de 19 anos, a estudante de medicina Stael Alves, 20 anos, e o arquiteto Renan Batista de 23 anos) o que fez com que Raquel não consegui-se conciliar a maternidade com a sopa.

O projeto voltou há cerca de onze meses por ideia da voluntária e professora de matemática, Jussara Schmidt de Monteiro, 50 anos, que ao ver a necessidade da comunidade se sentiu tocada e procurou Raquel por já ter feito o projeto antes.

Foto: Monique Esposito.

A sopa é feita todas as sextas-feiras na cozinha semi industrial do Grupo Espirita Raio de Luz, em Santa Rita, mas todos os voluntários fazem questão de deixar bem claro que apesar de a sopa ser feita lá não se trata de uma ação unicamente de pessoas da religião espírita. “E uma comunhão em prol de Jesus”, afirma Raquel.

O trabalho é voluntário e conta com um número rotativo de pessoas que se dividem em uma escala informal. “Quem chega já vai ajudando”, fala a voluntária aposentada da educação, Eunice dos Santos, 56 anos, conhecida pelo seu tempero.

 

O voluntariado 

Voluntária desde que o projeto retornou, Eunice acredita que o voluntariado é uma forma de fazer bem. “Eu não me sinto obrigada e acho que todos veem porque querem”, afirma ela.

De acordo com o Instituto Datafolha, cerca de 11% da população realiza alguma atividade voluntariada, sendo 28% da população brasileira que já exercício não remunerado em prol de ajudar o próximo. Isso significa três em cada dez brasileiro, já foram voluntários ao longo da vida.

A pesquisa aponta também que 58% iniciou a pratica para ser solidário com o próximo, 18% das pessoas foram influenciadas por conhecidos ou instituições, enquanto 17% afirmaram entrar por satisfação pessoal.

 

Arrecadação de alimentos   

No início, a divulgação pedindo ajuda da comunidade ocorreu nas rádios de Alto Araguaia , grupos de whatsapp e principalmente no boca à boca, gerando colaboradores fiéis.

Nicinha no preparo da sopa. Foto: Monique Esposito.

Eunice – “Nicinha”, como é chamada pelos colegas –, explica que o grupo não tem ajuda da prefeitura, e que os ingredientes vêm de doação das frutarias e mercados da região, mas quando falta algo o grupo se une novamente e faz “uma vaquinha” para comprar o que falta. A receita da sopa é simples: “Tudo que tem no dia, mais o macarrão e a carne”.

 

Do preparo até a entrega

Os preparativos começam por volta das 16h, e tem que ficar pronta até as 19h, que é quando começa a distribuição. “Começa esse horário para que as pessoas que recebem a sopa, não durmam”. A distribuição é feita em dois carros, sendo um para Santa Rita e outro para Alto Araguaia (MT). Em média, vão três pessoas em cada carro.

Além da sopa com pedaços de pão, o grupo leva balas e pirulitos para as crianças e pacotes das verduras e legumes que sobram para as famílias. O grupo visita sempre as mesmas casas, que foram escolhidas através de indicação de pessoas que irão a necessidade da família, ou por pedido das moradores, e a entrega dura em média 4 horas.

 

Abordagem

Os voluntários são esperados com ansiedade pelas famílias, quem quando escutam o barulho do carro, já saem com um sorriso no rosto e a vasilha para receber a sopa na mão.

Após a entrega, os moradores e o grupo se juntam em um circulo de oração, às vezes puxado por um membro do movimento, outras por um morador. A equipe interage por mais um tempo com a família, principalmente com as crianças, e depois partem para a próxima casa.

Momento de oração. Foto: Monique Esposito.

Atualmente, o projeto contempla cerca de 18 famílias em Alto Araguaia e 10 em Santa Rita, mais os andarilhos que são encontrados pelas ruas das cidades.

 

Situação em Santa Rita e Alto Araguaia

De acordo com a Assistência Social de Santa Rita, o município tem conhecimento de 6 moradores de rua no momento, porem a cidade de Alto Araguaia, não possuem um controle devido a grande rotatividade de andarilhos aderido ao fato da cidade ser divisa de estado.

A rota geralmente é a mesma. Primeiro os voluntários passam nas praças das cidades para ver se encontram algum desabrigado, depois seguem para as casas em que os moradores dormem cedo, e por fim vão às residências dos que acompanham a novelas das 9, por pousarem mais tarde.

 

A sopa é esperada ansiosamente pela criançada na casa de Domingos

 

Com roupas sujas, velhas e/ou rasgadas, cheiro forte e o sentimento estampado no rosto por ter o que comer à noite, cada beneficiado pelo movimento é envolvido por um abraço quente e palavras de força e amor. Preconceito é uma palavra que não existe aqui.

Domingos Rodrigues da Silva, pai de sete filhos, é um dos beneficiados com a sopa. Desempregado, faz “bicos” de serviços gerais para garantir o sustento de sua família, porém isso não é suficiente. Há cerca de sete meses ele recebe a sopa, junto de uma sacola de verduras e uma cesta básica mensal do Centro de Referência de Assistência Social (Cras).

Casa de Domingos. Foto: Monique Esposito.

“Eles me dão cinco quilos de arroz, um pacote de açúcar, um feijão, um óleo, um sal e um frango”, conta ele. A sopa é esperada ansiosamente pela criançada na casa de Domingos. “Agorinha eles matam ela”, declara, brincando, o pai.

Após cada entrega é feita uma oração com a participação de todos. Às vezes quem puxa a prece é um membro do movimento, outras um morador. Nem as crianças ficam de fora dessa. Na casa de Domingos, as crianças colocam até o cachorro para participar da oração. Um Pai Nosso seguido de palavras de agradecimento a Deus.

 

 “Assim eu não vou!”

Durante o nosso trajeto, Raquel conta diversas histórias sobre as peripécias que já ocorreram na entrega da sopa. Entre elas, a que mais chamou a atenção foi a de um viajante que estava dormindo nas praças da cidade de Alto Araguaia. O senhor de idade avançada foi abordado pelo grupo para receber a sopa. Em meio à conversa, ele revelou que estava recém-operado na barriga, porém não soube explicar do que.

Todos ficaram preocupados com a saúde do homem, pois ele corria risco de pegar uma infecção devido à situação insalubre em que se encontrava. Os voluntários começaram a ligar para suas respectivas redes de contatos. Após alguns telefonemas estava tudo resolvido.

O idoso teria roupas, comida e um leito no Hospital Municipal de Alto Araguaia, mas para isto deveria abandonar seu litro de pinga. Quando o homem soube da troca que teria de fazer, logo abraçou a garrafa, sentou no chão, cruzou as pernas e disse: “Assim eu não vou!”.

 

Todos ficaram preocupados com a saúde do homem, pois ele corria risco de pegar uma infecção devido à situação insalubre em que se encontrava.

 

Depois de alguns minutos de risadas, o grupo usou todos os argumentos possíveis para convencer o senhor, que no momento mais parecia uma criança mimada. Vencidos pelo cansaço, os voluntários providenciaram alimento e cobertores com o intuito de voltarem no dia seguinte para tentar novamente convencer o idoso e ajudá-lo a retornar à sua morada. Mas quando voltaram, o homem já havia partido sem deixar rastros.

O grupo almeja aumentar o número de famílias beneficiadas, para levar “o alimento do corpo e da alma”, a mais pessoas.

 

Outros trabalhos

Além da sopa, os voluntários realizam aos sábados encontros com café da manhã e almoço para as crianças que queiram participar da evangelização, e de forma não periódica bazares com o intuito de reverter o dinheiro para ajudar pessoas pobres, doar roupas e passagens para andarilhos, para que retornem a seus locais de origem.


// Você deve estar logado com seu perfil no Facebook para comentar. Este espaço visa promover um bom debate sobre o assunto tratado. Comentários com tons ofensivos, preconceituosos e que firam a ética e a moral podem ser excluídos.
Participe!