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100 anos de Luiz Beltrão, um ícone da Comunicação Brasileira

Escrever sobre o perfil de alguém é, por vezes, uma missão meio injusta. Seja tanto para quem se dispõe a traçar uma biografia, quanto pelo fato de que toda reconstituição histórica transporta consigo uma série de contradições, por mais fidedignas que ela aparenta ser. E no caso de falar sobre a memória de um personagem da envergadura do jornalista Luiz Beltrão, sempre será desafiador. Ainda mais quando, junto ao seu registro, comemora-se uma data tão simbólica: nesse 2018 esse pernambucano de nome peculiar completaria 100 anos (…)

(Crédito: Arquivo da Intercom).

No presente texto, abro dialogo para sabermos um pouco da história de Luiz Beltrão de Andrade Lima, jornalista, professor, pesquisador e um dos maiores estudiosos de Brasil do século 20. Uma história que, em tempos de tantas rupturas democráticas e ataques aos direitos da classe trabalhadora brasileira, parece-nos alertar de uma velha máxima: a qualidade de uma democracia é diretamente proporcional ao tipo de imprensa praticada nela.

Nascido na cidade de Olinda, em 1918, Luiz Beltrão desde sua infância de educação seminarista já esboçava o interesse por uma sociedade e imprensa mais justa às causas sociais. A inclinação religiosa e humanista dele seriam uma marca profissional, logo revelada nos primeiros textos de reportagem no jornal O Diário de Pernambuco, na década de 1930. Nos seus textos, Beltrão traduzia um Brasil ainda desconhecido para muitos: o Brasil dos grupos marginalizados. Foi repórter e redator ao longo de três décadas, também atuando nos impressos Correio do Povo e Jornal Pequeno, nas agências de notícias Asa Press e France Press e nas revistas Tudo, Guanabara Press, São Paulo Press e Capibaribe.

A militância de Beltrão levou à presidência da Associação de Imprensa de Pernambuco. Lá, ele teve uma participação direta na criação do Sindicato dos Jornalistas Profissionais daquele estado. Mas foi na universidade que o pernambucano obteve o reconhecimento, de fato.

Trajetória acadêmica de Beltrão

Sua trajetória acadêmica teve início com sua monografia intitulada “Iniciação à teoria do jornalismo”, em 1959, e consequentemente quando, segundo o professor José Marques de Melo (2000), ele começou a atuar como professor em Jornalismo. Beltrão lecionou: na Faculdade de Filosofia Nossa Senhora de Lourdes, em João Pessoa, Paraíba, em 1960; na Universidade Católica de Pernambuco, do qual contribuiu para a criação do curso de Jornalismo de lá e para a fundação do Instituto de Ciências da Informação (ICINFORM); e na Universidade de Brasília e no Centro de Estudos Universitários de Brasília (CEUB).

Na década de 1970 foi convidado a trabalhar na Fundação Nacional do Índio (FUNAI), contribuindo decisivamente para uma melhor relação entre a imprensa e sociedade brasileira para com as populações indígenas. O resultado deste trabalho foi o livro “O índio, um mito brasileiro”, publicado pela editora Vozes em 1977.

Enquanto pesquisador, a palavra protagonismo marca a atuação de Beltrão no Brasil e mundo afora. Ele fundou a revista Comunicação & Problema, em 1968, o primeiro periódico do Brasil, e é considerado o primeiro doutor em Comunicação, com a tese intitulada “Folkcomunicação: um estudo dos agentes e meios populares de informação de fatos e expressões de idéias”, defendida em 1967. Foi membro atuante de diversas associações latino-americanas de Comunicação como a CIESPAL (Centro Internacional de Estudios Superiores de Periodismo para América Latina), articulando encontros com pesquisadores dos Estados Unidos, Chile, Equador e Colômbia e internacionalizando trabalhos brasileiros. Lançou uma

série de livros nas áreas da ficção, comunicação, folkcomunicação e no ensino de ensino de jornalismo, num período onde a censura e a perseguição ideológica da ditadura civili-militar imperavam nos espaços acadêmicos.

Entre as principais publicações, vale citar: “Iniciação à teoria do Jornalismo” (1959), “Técnicas de jornal” (publicado pelo CIESPAL em 1964), “A imprensa Informativa” (1969), “Comunicação e Folclore” (1971), “A serpente no atalho” (1974), “Jornalismo Interpretativo” (1976), “Jornalismo Opinativo” (1980). Mas de todas elas a que mais me inspirou e inspira foi “Folkcomunicação, a comunicação dos marginalizados”, em 1980, cujas discussões retratam a realidade dos brasileiros situados à margem de tudo.

Beltrão teve reconhecimento pela comunidade acadêmica como pioneiro dos estudos sobre comunicação no Brasil. O seu nome foi escolhido pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (INTERCOM) como prêmio nacional que congratula os maiores pesquisadores e instituições da área. Ou seja: o nome do jornalista pernambucano tornou-se sinônimo de mérito científico.

Os últimos anos de vida de Beltrão são ao lado da sua esposa Zita Lima, em Brasília, capital federal. Ele faleceu numa sexta-feira de 24 de outubro de 1986, deixando, além de uma vasta produção acadêmica e literária, prêmios e reconhecimentos, um legado pioneiro, visionário, corajoso! Um patrono da comunicação popular, a Folkcomunicação; um ícone da comunicação brasileira, sem dúvidas!

Referência: MARQUES DE MELO, José e GOBBI, Maria Cristina. Gênese do Pensamento Comunicacional Latino-Americano. O protagonismo das instituições pioneiras: Ciespal, Icinform, Ininco. São Bernardo do Campo: Unesco/Umesp, 2000.

*Lawrenberg Advíncula da Silva é professor do curso de Jornalismo da Unemat desde 2010 e editor-geral da revista científica Comunicação, Cultura e Sociedade (RCCS).

e-mail: [email protected]

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