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Cursou Ciências da Computação em Alto Araguaia: Após morar 3 meses na rua, homem de 60 anos inicia faculdade em Cuiabá

Luiz Carlos trabalhava como auxiliar de serviços gerais em São Paulo, onde morava com a família

Fonte: Mídia News

Em fevereiro, Luiz Carlos Toledo, de 60 anos, chegou à Cuiabá para fazer a matrícula no curso de Engenharia Química na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Natural de São Paulo, ele precisou dormir nas ruas do Centro da Capital durante três meses enquanto aguardava o início do ano letivo.

Antes de dormir em cima de um papelão em um espaço coberto ao lado da Prefeitura de Cuiabá, Luiz Carlos passou 15 dias em um albergue municipal próximo ao Distrito da Guia, na Capital.

O fim do prazo de permanência no local deixou as ruas como a única opção para ele.

“Quando tive que sair do albergue, acabei ficando sem ‘eira nem beira’. Ficava pelas ruas e praças. Sentia muito medo de alguém me matar por estar vivendo na rua. Era um pesadelo. Fechava os olhos e sentia medo”, lembrou.

Ele contou que não tinha dinheiro e os documentos pessoais – obrigatórios para que ele fizesse a matrícula na UFMT – eram seus bens mais preciosos.

“Se me roubassem nem sei o que faria. Na rua não há tranquilidade, noite de sono ou descanso”, desabafou Luiz Carlos.

Determinado a se matricular no curso de Engenharia Química na UFMT, ele não pensou em desistir ou voltar para São Paulo.

Luiz Carlos sabia que a jornada dele em Cuiabá não seria fácil. Ele contou que desde criança assistiu seus familiares vencerem batalhas trabalhando muito e sabia que, com ele, não seria diferente.

Ele contou que essa foi a primeira vez em que se viu obrigado a viver em situação de rua. 

“Não vim para passear, vim realmente para estudar. Tive que viver nas ruas porque não conhecia ninguém em Cuiabá, mas sabia que aquilo teria fim. Jamais pensei em desistir. Sabia que precisaria ter persistência. Apesar daquelas condições, meu objetivo era maior”, contou.

Durante 2018, Luiz Carlos cursou Ciência da Computação na Universidade Estadual de Mato Grosso (Unemat), em Alta Araguaia (a 426 km de Cuiabá). A abertura de um edital de transferência para o curso de Engenharia Química na UFMT encheu os olhos dele de esperança. 

Para ele, em Cuiabá as oportunidades de estudo e trabalho seriam maiores. 

“Vi mais chances para o futuro cursando a UFMT em Cuiabá, aqui tem mais estrutura, além de ser a Capital. Também é a ‘terra do agronegócio’, me disseram que posso arrumar um estágio ou emprego nesse setor também. Estou ansioso”, disse. 

Preconceito 

Enquanto estava em situação de rua, Luiz Carlos contou que passou por situações desconfortáveis. Ele costumava andar descaço e com roupas velhas pelas ruas do Centro de Cuiabá, fato que atraía alguns olhares de reprovação. 

Para ele o Brasil sofre de um grave problema cultural com relação à pessoas que vivem em vulnerabilidade social. 

“Entrava nos lugares e as pessoas ficam me olhando. Mas sempre tive um comportamento bom, então tentava pensar que não tinha com o que me preocupar. Elas ficavam reparando, mas eu seguia em frente”, lembrou. 

Ele contou que muitas das pessoas que conheceu na rua sucumbiram às drogas e bebidas alcóolicas para conseguirem “esquecer” da situação em que estavam vivendo. Nos momentos mais difíceis, Luiz Carlos contou que encontrava forças na religião. 

“Sabia que aqueles dias passariam, que tudo ficaria bem”, relatou. 

Acolhimento 

Quando vivia nas proximidades da Praça da República, no Centro de Cuiabá, Luiz Carlos recebeu ajuda do estudante de doutorado da UFMT, Juliano Santana, que o acolheu e descobriu a história por trás do homem negro, alto e olhos esperançosos que dormia no local. 

Juliano contou que Luiz usava chinelo feito com pneu de carro

“Acredito que Deus coloca anjos em nossa vida quando estamos em uma situação delicada como essa. O Juliano foi um deles. Quando me encontrou, ele estava numa situação muito difícil, mas mesmo assim tem me ajudado muito”, disse. 

O doutorando desenvolve um trabalho com pessoas em situação de rua pelo Estudos de Cultura Contemporânea (Ecco) da UFMT. O “Café Solidário” faz parte da pesquisa de Juliano e acontece todas as quarta-feiras na Praça da República. 

Durante o evento, um café da manhã é oferecido às pessoas em situação de rua que estão no local –  e Luiz Carlos foi um dos beneficiados.

“Ele me encontrou pelo Facebook, entrou em contato comigo pedindo ajuda para conseguir roupas e calçados, porque ele não tinha. Ele tinha improvisado como o solado de um sapato, borrachas de pneu de um veículo que ele achou na Estrada da Guia”, contou Juliano. 

Para Juliano, Luiz Carlos é um “ponto fora da curva” já que as muitas situações difíceis na vida dele não fizeram com que ele desistisse dos objetivos. 

Além da ajuda do doutorando, o acolhimento do Diretório Central de Estudantes (DCE) da UFMT e de outros alunos da instituição fizeram com que Luiz Carlos se sentisse “abraçado”. 

Na última semana, ele se emocionou a receber de presente dos universitários uma maleta com os materiais necessários para iniciar o curso. 

“Quando chegaram com o presente, eu não conseguia nem acreditar. O pior já passou e agora sei que não estou mais sozinho nessa batalha”, disse. 

Emocionado, Luiz Carlos também lembrou da despedida na Casa do Estudante Universiário (CEU) da UFMT, onde passou a última semana. 

Luiz Carlos se emocionou com acolhimento de universitários da UFMT

“Ganhei até caderno e um estojo, agora só preciso me dedicar aos estudos mesmo”, contou.

Nessa quarta-feira (8), Luiz Carlos foi chamado pela Pró-reitoria de Assistência Estudantil (Prae) para uma reunião com a psicológa e a assistente social do local. 

“Ainda não decidiram nada, mas estou tranquilo. Agora sei que não estou sozinho”, disse. 

Para o futuro, Luiz Carlos espera conseguir trabalhar na área e conquistar uma vida melhor através dos estudos. 

“Quando era mais novo precisei trabalhar muito e a educação ficou de lado. Hoje sei que preciso de conhecimento, sou curioso e gosto de estudar. Quando me formar terei 65 anos, mas isso também não vai me impedir. Sei que posso fazer muita coisa”, avaliou. 

“Vaquinha” virtual

Juliano criou uma “vaquinha virtual” para ajudar Luiz Carlos enquanto ele aguarda uma decisão da Prae, responsável por questões referentes a auxílios estudantis e vagas na CEU. 

 Com o valor serão adquiridos materiais escolares, roupas e alimentos para ele. 

A meta da campanha é arrecadar R$ 5 mil. Clique AQUI para conferir a vaquinha. 

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